Você se pega fazendo pelo seu filho com autismo coisas que ele provavelmente já conseguiria fazer sozinho? Sente que precisa estar sempre por perto, sempre vigilante, sempre pronto para intervir antes que algo dê errado? Isso tem nome: superproteção parental. E é uma das respostas mais comuns, e mais compreensíveis, ao diagnóstico de TEA.
A superproteção parental no autismo acontece quando os cuidados necessários se transformam em limitação da autonomia da criança, muitas vezes sem que os pais percebam essa transição. Estudos brasileiros mostram que 70% das mães de crianças com autismo apresentam altos níveis de estresse, e que conflitos sobre superproteção são uma das principais fontes de divergência entre os pais no cuidado do filho. Entender esse mecanismo é o primeiro passo para transformá-lo.
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O que é superproteção parental no autismo?
Superproteção parental é o padrão de comportamento em que os cuidadores assumem responsabilidades, decisões e tarefas que a criança poderia, com suporte adequado, realizar por conta própria. No contexto do TEA, esse padrão costuma surgir como resposta natural aos desafios reais do diagnóstico, mas pode acabar limitando justamente o desenvolvimento que se deseja proteger.
O diagnóstico de autismo é sempre um momento delicado, pois traz repercussões e mudanças expressivas na vida de pais e mães. Segundo o DSM-5, o autismo é um transtorno do neurodesenvolvimento caracterizado por dificuldades de interação social, comunicação e comportamentos repetitivos e restritos. Os desafios reais vivenciados pela família e pela criança com TEA frequentemente justificam, aos olhos dos pais, a necessidade de proteção constante.
O problema não está em proteger. Está em quando a proteção substitui a oportunidade de a criança desenvolver suas próprias habilidades.
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Por que a superproteção parental acontece no autismo?
A readaptação aos cuidados intensivos e específicos exigidos por filhos com TEA tem como consequência não apenas a exaustão dos cuidadores, mas também representa uma tarefa emocionalmente dolorosa para pais que se encontram em uma realidade diferente da planejada.
Pesquisa publicada no SciELO Brasil sobre coparentalidade em famílias de crianças com TEA identifica que os maiores conflitos na relação entre os pais decorrem justamente de divergências nas práticas educativas, principalmente quanto ao estabelecimento de limites ou à superproteção do filho.
Algumas das principais fontes da superproteção parental começam a partir do momento em que o autismo se manifesta, quando grande parte das mudanças no ambiente familiar recai, em especial, sobre as mães. Elas assumem para si a responsabilidade pelos cuidados desafiadores, o que pode levar à dependência dos filhos em questões como higiene e alimentação, mesmo quando a criança teria condições de desenvolver maior autonomia nessas áreas.
Outro fator que influencia a superproteção é o olhar de terceiros quando a criança com TEA frequenta espaços públicos ou escolas. Ao perceber a vulnerabilidade do filho frente a olhares por vezes discriminatórios, a mãe se sente ainda mais na posição de defender e proteger, em alguns casos recorrendo ao isolamento social como forma de proteção.
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Qual é o impacto da superproteção parental na mãe e na família?
Os dados sobre o impacto do cuidado intensivo nas mães de crianças com autismo são expressivos e merecem atenção.
Pesquisa publicada no SciELO Brasil sobre itinerário terapêutico de mães de crianças com transtorno autístico aponta que, ao investigar níveis de estresse em 30 mães de pessoas com autismo, 70% apresentaram altos níveis de estresse. O estudo destaca que, como principal cuidadora, recai sobre a mãe o ônus da supervisão permanente, o que intensifica significativamente a sobrecarga.
Outra revisão sistemática brasileira sobre autismo infantil e estresse familiar identificou que 33% das mães de crianças autistas apresentaram transtorno psiquiátrico menor, e que muitas famílias relataram que o cuidado de um filho com autismo constituiu sobrecarga emocional, física e financeira significativa.
Esses números não são apresentados para gerar culpa. São apresentados para que cada família entenda: se você sente exaustão, sobrecarga e até sintomas de ansiedade ou esgotamento, isso não é fraqueza. É uma resposta documentada e compreensível a uma realidade exigente. E é exatamente por isso que buscar suporte, tanto para o filho quanto para si mesmo, é essencial.
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Como a superproteção afeta o desenvolvimento da criança com autismo?
É no convívio com a família, outros cuidadores e educadores que a pessoa com autismo desenvolve suas habilidades, que se modificam ao longo dos anos com o avanço típico de pessoas com TEA. Quando a superproteção limita esse convívio e essas oportunidades de prática, o desenvolvimento da autonomia fica comprometido.
Para que a criança com autismo receba os estímulos necessários para aprimorar linguagem, comunicação e comportamentos sociais, é preciso que a família esteja aberta a estratégias e intervenções terapêuticas, como as baseadas em ABA, encerrando o ciclo de superproteção parental.
Cada tarefa que a criança realiza com suporte adequado, em vez de ter a tarefa feita por ela, é um tijolo na construção da autonomia. Para entender como as atividades básicas da vida diária são trabalhadas no autismo e como elas se conectam diretamente a esse processo, veja nosso conteúdo sobre ABVD no autismo.
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Como diferenciar cuidado necessário de superproteção?
Essa é a dúvida mais frequente das famílias, e a resposta exige reflexão honesta, sem julgamento.
Cuidado necessário é aquele que respeita a fase de desenvolvimento da criança, oferece suporte proporcional à dificuldade real, e diminui à medida que a habilidade se consolida. Um exemplo: ajudar a criança a se vestir enquanto ela está aprendendo, com supervisão decrescente conforme ela ganha autonomia.
Superproteção é o cuidado que se mantém constante independentemente do progresso da criança, que antecipa dificuldades antes mesmo que aconteçam, e que tira da criança a oportunidade de tentar, errar e aprender. Continuar vestindo a criança mesmo quando ela já demonstrou capacidade de fazer isso sozinha é um exemplo.
Algumas perguntas que ajudam essa reflexão: Eu faço isso porque ele realmente não consegue, ou porque é mais rápido eu fazer? Eu evito essa situação porque é perigosa, ou porque tenho medo do que pode acontecer? Quando foi a última vez que dei a ele a chance de tentar sozinho?
Para entender como as funções executivas se relacionam com a capacidade de planejamento, organização e autonomia, veja nosso conteúdo sobre funções executivas no autismo: como estimular em casa, que traz estratégias práticas de estímulo.
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Como a terapia ajuda a romper o ciclo de superproteção parental?
Quando falamos do desenvolvimento das habilidades da criança com TEA, é fundamental mencionar a importância da participação da família, principalmente da mãe, que costuma assumir as maiores responsabilidades nos cuidados específicos que o filho demanda.
A eficácia do acompanhamento com fonoaudiólogos, psicólogos, fisioterapeutas, terapeutas ocupacionais e outras intervenções está comprovada para o desenvolvimento das competências da criança com TEA, mesmo em quadros mais intensos do espectro. E é importante destacar: a intervenção terapêutica não beneficia apenas a criança que vive sob superproteção parental. Beneficia também os pais, que buscam inclusão social no convívio de uma nova realidade trazida pelo diagnóstico.
A ciência ABA, em especial, tem como um de seus principais objetivos promover a autonomia, ajudando crianças a adquirirem habilidades essenciais para o dia a dia: comunicação, interação social, habilidades acadêmicas e controle de comportamentos. Para entender como essa abordagem funciona na prática e por que é considerada a base científica mais eficaz no tratamento do autismo, veja nosso conteúdo sobre a importância da ciência ABA.
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