Você já se perguntou por que parece haver cada vez mais crianças com autismo ao redor? Por que a escola tem mais alunos com TEA do que há dez anos? Por que o assunto virou pauta constante em consultórios pediátricos? Essas perguntas têm resposta, e ela é mais complexa do que parece.
Os dados do CDC (Centers for Disease Control and Prevention) dos Estados Unidos mostram uma mudança expressiva: em 2000, era diagnosticado 1 caso de autismo a cada 150 crianças. Em 2020, esse número passou para 1 a cada 36 crianças. No Brasil, estimativas indicam que, na faixa de zero a quatro anos, mais de 114 mil crianças poderiam ser diagnosticadas com TEA (Transtorno do Espectro Autista), segundo dados do SciELO Brasil. O aumento é real, mas as razões por trás dele são múltiplas e merecem ser compreendidas com cuidado.
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Por que tantas crianças com autismo hoje?
A resposta direta é: porque mais crianças estão sendo identificadas, e não necessariamente porque mais crianças nasceram com autismo.
Esse é um ponto fundamental. Os primeiros estudos epidemiológicos sobre o autismo, da década de 1960, indicavam uma prevalência de 4 a 5 casos por 10.000 nascimentos. Hoje, pesquisas apontam médias de 40 a 60 casos por 10.000, conforme levantamento publicado no SciELO Brasil. Esse salto não significa que o autismo surgiu do nada. Significa que estamos melhores em identificá-lo.
Três fatores principais explicam esse fenômeno:
Ampliação dos critérios diagnósticos. A cada revisão do DSM, o manual que define os critérios para o diagnóstico de TEA, mais perfis passaram a ser incluídos no espectro. O que antes seria classificado como “criança difícil” ou “introvertida” hoje pode receber uma avaliação mais precisa. O espectro ficou mais amplo porque a compreensão científica ficou mais sofisticada.
Maior acesso ao diagnóstico. Com mais serviços especializados disponíveis, como os CAPSi e CERs no Brasil, mais famílias chegam a profissionais capazes de identificar o TEA. Grupos que antes eram subdiagnosticados, como meninas, crianças negras e famílias de baixa renda, têm chegado mais ao diagnóstico.
Mais preparo dos profissionais de saúde. Pediatras, professores e outros profissionais que convivem com crianças estão mais conscientes dos sinais precoces do autismo. Isso facilita o encaminhamento para especialistas e acelera o diagnóstico.
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Por que as crianças estão nascendo com autismo?
Essa pergunta carrega uma premissa importante a ser examinada: as crianças não “estão nascendo com mais autismo” do que antes. O autismo é uma condição neurológica presente desde o nascimento, e os estudos não confirmam um aumento genuíno na incidência do transtorno em si. O que aumentou, de forma documentada, é o número de diagnósticos.
Dito isso, a ciência investiga fatores que podem influenciar o risco de desenvolvimento do autismo ainda no período gestacional e perinatal. Esses fatores não causam o autismo de forma isolada, mas podem interagir com predisposições genéticas e aumentar a probabilidade de manifestação do transtorno.
Os principais fatores estudados incluem:
Idade avançada dos pais. Pesquisas associam idade paterna e materna avançada a maior risco de TEA no filho. O mecanismo mais estudado envolve mutações genéticas espontâneas que ocorrem com mais frequência em células reprodutivas de pessoas mais velhas.
Fatores gestacionais. Uso de certos medicamentos durante a gravidez, infecções virais no primeiro trimestre, estresse gestacional intenso e complicações no parto estão sendo investigados como possíveis influências no desenvolvimento neurológico do bebê.
Fatores genéticos. O autismo tem forte componente hereditário. Estudos com gêmeos mostram concordância de até 90% em gêmeos idênticos. Não existe um único gene do autismo, mas combinações de variantes genéticas que aumentam a suscetibilidade.
Fatores ambientais. A exposição a poluentes, metais pesados e disruptores endócrinos durante a gestação é objeto de investigação, embora as evidências ainda não sejam conclusivas o suficiente para estabelecer relação causal direta.
Para entender como o autismo se manifesta em diferentes perfis e o que os pais precisam observar desde cedo, veja nosso conteúdo sobre os sinais de autismo.
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O autismo é hereditário? Qual é o papel da genética?
Sim, a genética tem papel central no autismo. Estudos científicos mostram que irmãos de crianças com TEA têm entre 10% e 20% de chance de também serem diagnosticados, proporção muito acima da prevalência na população geral. Em gêmeos idênticos, a concordância pode chegar a 90%.
Isso não significa que o autismo é sempre herdado de um dos pais. Em muitos casos, as variantes genéticas surgem como mutações novas, sem histórico familiar. O que se herda é uma predisposição neurológica, que pode ou não se manifestar dependendo de outros fatores.
A ausência de histórico familiar não descarta o autismo. E a presença de autismo em um familiar não significa que todas as crianças da família serão diagnosticadas.
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A vacina causa autismo? O que a ciência diz?
Não. A hipótese de que vacinas causam autismo foi amplamente refutada pela ciência. O estudo que deu origem a essa ideia, publicado em 1998 por Andrew Wakefield, foi retirado da revista Lancet por fraude nos dados. Seu autor perdeu o registro médico no Reino Unido.
Desde então, dezenas de estudos independentes, com centenas de milhares de crianças em diferentes países, não encontraram nenhuma associação entre vacinas e autismo. A OMS, o CDC e todas as principais entidades científicas de saúde do mundo confirmam que vacinas não causam autismo.
Vacinas protegem crianças de doenças graves. O autismo é uma condição neurológica com origem genética e desenvolvimental, não relacionada à vacinação.
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O autismo está aumentando no Brasil?
No Brasil, o cenário é parecido com o global, embora os dados sejam menos precisos. O país ainda não tem um censo sistemático de prevalência do TEA. A Lei 13.861/2019 obrigou o IBGE a incluir perguntas sobre autismo no Censo Demográfico, o que deve fornecer dados mais precisos nos próximos anos.
O que é documentado é o aumento expressivo de diagnósticos. Parte desse aumento reflete o crescimento de serviços especializados, como os CERs (Centros Especializados em Reabilitação), que ampliam o acesso ao diagnóstico em regiões que antes não tinham essa estrutura. Parte reflete maior conscientização de famílias e profissionais de saúde.
Segundo artigo publicado no SciELO Brasil, a dificuldade no estabelecimento da incidência real no Brasil e a escassez de pesquisas epidemiológicas específicas para a realidade nacional tornam a chamada “epidemia de autismo” questionável como fenômeno biológico, mas inegável como fenômeno diagnóstico.
Para entender o código que aparece no laudo de diagnóstico de autismo no Brasil e o que ele significa na prática, veja nosso conteúdo sobre o CID F84 e o diagnóstico de autismo.
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O que o aumento dos diagnósticos significa para as famílias?
Mais diagnósticos significam mais crianças tendo acesso a suporte especializado mais cedo. E isso é uma mudança positiva.
Quando o autismo não era identificado, crianças cresciam sem entender por que certas situações eram tão difíceis para elas, sem terapias que as ajudassem a desenvolver habilidades e sem os direitos garantidos por lei. O diagnóstico não rotula: ele abre portas.
No Brasil, a Lei 12.764/2012 (Lei Berenice Piana) garante a pessoas com TEA direito a atendimento especializado na saúde, adaptações escolares e atendimento prioritário. Esses direitos só são acessíveis com o diagnóstico formal. Quanto mais precocemente o diagnóstico acontece, mais cedo a criança começa a receber o suporte de que precisa.
Para entender como funciona a intervenção precoce e o que ela pode transformar no desenvolvimento da criança, veja nosso conteúdo sobre como é possível migrar de nível no autismo e o que as evidências dizem sobre o impacto do tratamento iniciado cedo.
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Como identificar os sinais de autismo em crianças pequenas?
Quanto mais cedo os sinais são identificados, mais cedo começa a intervenção. E essa antecipação faz diferença real no desenvolvimento da criança.
Os sinais de alerta mais frequentes nos primeiros anos de vida incluem ausência de balbucio ou palavras esperadas para a idade, pouco ou nenhum contato visual, não responder ao próprio nome, não apontar para objetos de interesse, perda de habilidades já adquiridas e dificuldade de interação com outras crianças.
Esses sinais não confirmam o diagnóstico, mas indicam que uma avaliação especializada deve ser buscada com urgência. Para entender quais são os testes de autismo usados no processo diagnóstico e o que esperar de cada etapa, esse conteúdo orienta o caminho.
Os primeiros estudos epidemiológicos, publicados na década de 1960, indicavam prevalência de 4 a 5 casos de autismo por 10.000 nascimentos. Hoje, pesquisas mostram de 40 a 60 casos por 10.000, conforme dados revisados no SciELO Brasil. Uma diferença que reflete, sobretudo, avanços na identificação e diagnóstico.
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