Quando se pensa em criança, logo vêm à mente brincadeiras, imaginação e movimentos. Para crianças com autismo, brincar é uma experiência muito mais complexa do que parece. E entender por que isso acontece muda completamente a forma como os pais e terapeutas abordam essa questão.
O brincar no autismo não é ausente por falta de vontade. É diferente por razões neurológicas. A criança autista pode ter dificuldade em iniciar brincadeiras, preferir manipular objetos de forma repetitiva em vez de criar narrativas de faz de conta, e se sentir confusa diante das regras implícitas e dos papéis sociais que as brincadeiras coletivas exigem. Pesquisa publicada no SciELO Brasil confirma que a presença universal da brincadeira na infância sugere que esse comportamento tem grande valor adaptativo para a espécie, e que crianças com autismo apresentam dificuldades no brincar que merecem atenção específica e suporte estruturado.
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
Por que crianças autistas têm dificuldade para brincar?
A dificuldade de brincar em crianças com TEA tem raízes neurológicas em três áreas centrais do autismo:
Interação social: o brincar coletivo exige leitura de sinais sociais, compreensão das intenções do outro, reciprocidade e flexibilidade. Todas essas habilidades são desafiadas pelo autismo. A criança com TEA frequentemente não sabe como iniciar uma brincadeira com outra criança, como responder ao convite de um colega ou como negociar papéis num jogo imaginativo.
Comunicação: grande parte das brincadeiras depende de comunicação verbal e não verbal para se desenvolver. Definir as regras do jogo, combinar os papéis do faz de conta, discutir o que vai acontecer na história: tudo isso exige linguagem funcional que pode estar comprometida.
Imaginação e flexibilidade: o brincar simbólico, onde um cabo de vassoura vira cavalo e uma caixa vira foguete, exige a capacidade de usar objetos como símbolos de outras coisas. Essa capacidade de abstração pode ser menos desenvolvida em crianças com autismo, que frequentemente preferem usar os objetos de forma literal e repetitiva.
O resultado é que muitas crianças com autismo ficam presas em padrões repetitivos com os objetos, fazendo movimentos sistemáticos em vez de criar narrativas. Isso não é teimosia ou desinteresse. É a forma que o sistema nervoso encontrou para se engajar com o mundo sem as ferramentas sociais e simbólicas que o faz de conta exige.
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
O que o brincar desenvolve em crianças com autismo?
Quando uma criança compreende o brincar, ela está demonstrando conhecimento de mundo e das regras sociais e, consequentemente, um maior desenvolvimento cognitivo. O brincar funcional está associado ao aumento da atenção compartilhada, do contato visual e das habilidades comunicativas da criança com TEA.
A importância do brincar vai muito além da diversão. Para qualquer criança, com ou sem autismo, brincar é:
Desenvolvimento neurológico e cognitivo: o brincar cria conexões neurais, estimula a memória de trabalho, o planejamento e a resolução de problemas. Para crianças com TEA, o brincar estruturado é uma das ferramentas mais naturalmente motivadoras para exercitar essas funções.
Linguagem e comunicação: brincando, a criança tem motivação real para se comunicar: pedir um objeto, recusar uma ideia, propor uma alternativa. Esse contexto comunicativo é muito mais rico do que sessões de linguagem descontextualizadas.
Atenção compartilhada: seguir a atenção de outra pessoa, apontar para algo interessante, olhar juntos para o mesmo objeto. A brincadeira é o ambiente mais natural para desenvolver essa habilidade fundamental.
Habilidades sociais: aprender a esperar a vez, a seguir regras, a lidar com perder, a negociar. Tudo que as brincadeiras ensinam de forma indireta, natural e motivadora.
Consciência corporal e motricidade: brincar envolve o corpo. Correr, pular, equilibrar, manipular objetos, imitar movimentos. Cada brincadeira é também um treino motor disfarçado de diversão.
Noção de espaço e percepção do outro: a criança aprende a perceber sua existência em relação ao mundo e às outras pessoas por meio das interações lúdicas.
Para entender como o brincar simbólico especificamente se desenvolve e qual é o seu papel no crescimento cognitivo da criança, veja nosso conteúdo sobre brincar simbólico: o que é e como estimular.
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
O papel dos pais: como incentivar o brincar de crianças autistas?
Muitos pais relatam frustração ao tentar brincar com o filho com autismo. Os convites são ignorados, as brincadeiras propostas não se sustentam, o filho prefere repetir sempre as mesmas ações com os mesmos objetos. Com o tempo, os convites vão ficando mais raros e a falta de brincadeiras empobrece justamente o que mais precisaria ser estimulado.
Esse ciclo é compreensível. E pode ser quebrado com algumas mudanças de abordagem:
Entre no mundo da criança primeiro. Em vez de propor uma brincadeira nova, comece por se sentar ao lado da criança e observar o que ela está fazendo. Imite seu movimento. Faça o que ela faz. Essa estratégia, chamada de brincar em paralelo, cria conexão sem impor nada novo.
Use os interesses dela como porta de entrada. Se a criança tem hiperfoco em dinossauros, trens ou números, use esses temas para estruturar brincadeiras. O interesse é o maior motivador de aprendizado disponível.
Reduza as expectativas no início. Um segundo de atenção compartilhada é progresso. Não espere uma brincadeira completa de imediato. Celebre cada pequena participação.
Seja previsível. Crianças com autismo tendem a se sentir mais seguras em situações previsíveis. Criar rituais de brincadeira, com hora certa, lugar certo e sequência conhecida, reduz a ansiedade e aumenta a participação.
Reforce qualquer aproximação ao brincar. Elogio imediato e específico para cada comportamento de engajamento lúdico, por menor que seja, é um dos recursos mais eficazes para estimular o brincar ao longo do tempo.
Para entender quais atividades lúdicas são mais indicadas para crianças com TEA e como estruturá-las em casa, veja nosso conteúdo sobre atividades para crianças com TEA.
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
Brincar com outras crianças: o que é possível?
Pesquisa publicada no SciELO Brasil sobre competência social e autismo demonstrou que a habilidade para engajar-se em jogos e brincadeiras complexas entre 1 e 3 anos de idade está associada a uma maior presença de comportamentos pró-sociais e a uma menor agressividade na idade escolar. O estudo também identificou que experiências precoces com pares em espaços que permitam o desenvolvimento de interações, como a escola, são fundamentais para o desenvolvimento da competência social de crianças com autismo.
Isso significa que expor a criança com autismo a situações de brincadeira com outras crianças, mesmo que com suporte, é importante. Não para forçar a interação, mas para criar oportunidades reais de prática das habilidades sociais em contexto natural.
A inclusão em ambientes escolares, com suporte adequado, oferece justamente essas oportunidades. Para entender como a escola pode apoiar o desenvolvimento social de crianças com autismo, incluindo o brincar coletivo, veja nosso conteúdo sobre habilidades sociais no autismo.
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
O brincar no contexto terapêutico do autismo
A brincadeira não é apenas um momento de lazer. Em crianças com autismo, ela é um ambiente de intervenção terapêutica poderoso.
Terapias baseadas em ABA usam o brincar naturalístico como contexto principal para o ensino de habilidades: a criança aprende porque está genuinamente engajada e motivada. A terapia ocupacional usa o brincar para desenvolver coordenação motora, processamento sensorial e autonomia. A fonoaudiologia usa a brincadeira para criar oportunidades de comunicação funcional e linguagem contextualizada.
Quando a criança aprende a brincar, ela aprende muito mais do que brincar. Ela aprende a se comunicar, a interagir, a flexibilizar, a lidar com a imprevisibilidade do outro. Para entender como os stims e comportamentos repetitivos se relacionam com o brincar e a autorregulação sensorial, veja nosso conteúdo sobre stims e seu papel no cotidiano de pessoas com TEA.
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________
Quando buscar ajuda profissional?
Se você percebeu que o seu filho apresenta dificuldade em iniciar ou permanecer nas brincadeiras, seja sozinho ou com outras crianças, buscar orientação profissional é o caminho certo.
Alguns sinais que indicam que o suporte especializado é necessário:
- A criança não demonstra interesse em brincar com outras crianças mesmo quando a oportunidade existe.
- Prefere repetir sempre as mesmas ações com os mesmos objetos, sem variar.
- Tem dificuldade de manter uma brincadeira por mais de alguns segundos.
- Não imita gestos ou ações de adultos ou crianças.
- Não desenvolve brincadeiras de faz de conta mesmo após os 2 anos.
Esses sinais não confirmam um diagnóstico, mas indicam que uma avaliação especializada vale a pena. Para entender o que observar em cada faixa etária e quando buscar avaliação, veja nosso conteúdo sobre sinais de autismo.
____________________________________________________________________________________________________________________________________________________________________